EM HOMANAGEM AS RUAS DA MINHA INFANÇIA , DE BARRO VERMELHO QUE ACOLHIA MINHAS
ALEGRIA E TRSTEZAS, E ME PERMITIA CORRER POR ELAS ATÉ PERDER O
FÔLEGO.........RUAS DE PENÁPOLIS POR ONDE PASSEI MINHA ADOLESCÊNCIA,CONFUSA COMO
TODA ADOLESCÊNCIA, RUAS DO ARISTON DE BARRO VERMELHO, COM FLORES DE PINHÃO
ALARANJADA,RUAS DE ORLANDIA, POR ONDE CHEIA DE MEDO ENFRENTEI MEU PRIMEIRO DIA
DE AULA.POR ONDE DEIXEI MINHAS PEGADAS QUE ME TROUXERAM ATÉ AQUI.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Rutília é nome inventado. Uma mistura de outros dois - Ruth e Marília -, filhas do homem que construiu, em 1934, as casinhas art déco nesta estreita via de paralelepípedos.
Ilhada num bairro nobre de São Paulo, a rua Rutília parece viver em outro tempo, bem diferente daquele que rege a metrópole a sua volta. Quem a usa como atalho vira freguês.

Por causa de suas árvores, o quarteirão parece estar sempre de bom humor. A colaboração de cada morador criou aos poucos um paisagismo intuitivo, de clima ameno e visual agradável.

E, como numa corrente do bem, essa atmosfera cidadã e acolhedora contamina a todos. Não se vê lixo pelo chão nem fachadas desleixadas. De vez em quando, alguém, sem pressa, varre as folhas na calçada.

"Aproveitei a sobra de tinta da pintura da minha casa para colorir os vasos que ficam na entrada. No primeiro, usei tinta a óleo roxa e, nos outros, acrílica"
Cristina Ramalho, escritora

Logo na entrada da rua, três vasos coloridos chamam a atenção. Em destaque sobre o muro branco, eles hospedam manacá-da-serra-anão (Tibouchina mutabilis), cróton (Codiaeum variegatum) e gerânio (Pelargonium x hortorum).

São as boas-vindas da jornalista e escritora Cristina. "É uma forma simples de oferecer beleza para quem passa", afirma ela, que chegou na casa há apenas três meses por indicação de um amigo que teve de mudar. "Funciona mais ou menos como uma confraria para você conseguir uma vaga aqui: é superdisputado", diz, brincando.

"Para as plantas ficarem bonitas, costumo adubar a terra antes de plantar. Depois, a cada dois meses, renovo a dose com adubo orgânico e NPK"
Maria Luiza Brandão Cruz, aposentada

Moradora antiga, dona Maria Luiza já viu muita coisa acontecer na Rutília. "Meu marido comprou a casa há 35 anos, quando a rua era ainda mais tranqüila do que hoje. Dava para ouvir até grilos cantando", lembra. Se não há mais tantos grilos por aqui, não faltam pássaros.

"Já vi sabiá, bem-te-vi, beija-flor, sanhaço, pombinhas e periquito. Quase todos os vizinhos colocam água para eles." As aves são atraídas pelas amoreiras e flores como a hortênsia-chinesa (Clerodendron bungei), que dona Maria Luiza trouxe da Ceagesp para enfeitar sua calçada.

"As espirradeiras pegam facilmente: basta colocar um galho numa garrafa de água e esperar criar raízes. Depois, é só plantar em terra bem adubada"
Ruth Piva Ranieri, dona-de-casa

A árvore florida na frente da casa intriga: afinal, como pode uma espirradeira (Nerium oleander) ter duas cores? "Eu plantei no mesmo local duas mudas, que cresceram juntas. Quase ninguém percebe", confessa dona Ruth, moradora da Rutília há 27 anos.

Ela adora mostrar a planta para as visitas: "Tem de ter método para apreciar: é preciso olhar de vários ângulos". A exuberância da espécie é garantida pelo desvelo da dona, que, todos os dias de manhã, sai para regá-la e fazer a manutenção do tronco, limpando os galhinhos perto da raiz.

"Aprendi a limpar as folhas caídas no canteiro e a tirar os matinhos ao redor da planta. Em áreas pequenas, eles impedem a terra de respirar e receber água"
Celina Andrade Pereira, psicóloga

Celina freqüenta a rua desde criança. "Vinha visitar a minha tia e, em 2000, passei a viver na casa que foi sua. Tenho ótimas lembranças", conta ela, que mora com a advogada Alexandra Pericão

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